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No Altar com o Inimigo

No Altar com o Inimigo

Autor: Nora Valenne
Gênero: LGBT+
Duas famílias rivais. Um casamento forçado. Um segredo capaz de arruinar tudo. Alessio Moretti cresceu sob a sombra do poder e da violência. Filho de um dos chefes mais temidos da máfia, aprendeu cedo que sentimentos eram fraquezas - e que amar o inimigo era a maior delas. Quando um acordo sangrento exige que ele se case com o herdeiro da família Rinaldi, Alessio acredita estar entrando apenas em mais uma guerra disfarçada de aliança. Mas, ao subir ao altar, descobre que o maior risco não é o veneno servido nas taças ou as armas escondidas sob os ternos... e sim o desejo proibido que nasce justamente por quem deveria odiar. Entre traições, jogos de poder e uma paixão que ameaça incendiar séculos de ódio, Alessio terá de escolher: manter-se fiel ao legado que o moldou ou trair tudo o que conhece para seguir o próprio coração. Porque, no altar, o inimigo pode ser também a perdição - ou a salvação.
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Capítulo 1 TRAIÇÃO

Alessio

O sangue quente marcava minhas mãos. Ao meu lado, a maleta com os instrumentos que eu usava; à minha frente, o que restava de um homem. Um traidor - e traidores não deveriam viver. Isso não tornava menos repugnante o que eu era obrigado a fazer.

Mas era o meu dever com a Família.

- Vou perguntar uma última vez: quais outras informações você vendeu? - minha voz saiu fria. Precisava ser.

Mesmo com o suor escorrendo pela minha coluna. Mesmo com a mistura pegajosa de sangue e suor grudando em minha pele.

O porão fedia a morte e desespero. Eu deveria estar acostumado, mas não estava. Talvez nunca estivesse. Talvez eu fosse realmente fraco, como Vittorio insistia em repetir.

Girei a faca entre os dedos. O olho que ainda se mantinha aberto me fitou, enjeitado, vermelho de sangue.

- Eu juro, Alessio... já contei tudo.

Aproximei-me devagar, cada passo calculado.

O homem arfava, cada respiração um arranhar desesperado contra a própria garganta. Eu o observava em silêncio, a lâmina girando entre meus dedos como um pêndulo inevitável.

Parte de mim queria acreditar. Queria largar aquela faca, sair daquele porão e esquecer o que havia feito - e o que ainda faria. Mas a outra parte, a que carregava o nome Moretti, não podia se dar ao luxo de acreditar em juras de um traidor.

Inspirei fundo, o cheiro metálico me queimando por dentro. Inclinei-me sobre ele, tão perto que pude sentir o hálito quebrado de sua agonia.

- Sabe qual é o problema com mentirosos? - murmurei, a voz baixa, quase íntima. - Eles sempre acreditam que a próxima mentira vai salvá-los.

Os olhos dele tremeram, implorando, e nesse instante percebi algo: medo não apaga a coragem de um homem, apenas a torce até o limite. E eu precisava saber se aquele limite já tinha sido alcançado.

A ponta da lâmina encostou em sua pele. Um toque leve, quase delicado. Ele estremeceu, e o silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer grito.

- Então, vou perguntar pela última vez... - minhas palavras desceram como sentença. - Quem mais sabe?

O porão pareceu encolher, como se as paredes respirassem junto de nós, presas na mesma escuridão.

O silêncio se prolongou. O olhar dele se movia rápido demais, nervoso demais. Eu já tinha visto isso antes: o desespero de quem ainda guarda algo.

A lâmina afundou em sua pele com um corte rápido. O grito ecoou pelo porão, seco, abafado pelo espaço estreito. O sangue jorrou quente, respingando em meus braços, mas não desviei o olhar.

- Quem mais sabe? - repeti, cada palavra um golpe.

Ele tentou falar, mas a dor lhe roubava a voz. Apertei a lâmina de novo, firme, implacável. Finalmente, as palavras escaparam entre soluços sufocados: nomes, lugares, detalhes que não tinham aparecido antes.

No fundo, uma parte de mim se encolhia, repugnada. Mas a outra - a parte moldada pela Família, pelo olhar gélido de Vittorio - sabia que não havia retorno.

Quando terminei, o homem não passava de um farrapo de carne e sangue que ainda respirava. E, ainda assim, a maldita sensação de vazio me corroía por dentro. Porque eu sabia que amanhã, haveria outro. E depois, mais um.

A pesada porta atrás de mim se abriu. Juliano surgiu, a expressão inalterada diante do que restava do meu interrogatório.

- Don Vittorio está lhe esperando.

Não havia espaço para contestar. Sequei as mãos em um pano, tentando apagar a sujeira entranhada em mim. Mas era inútil.

O som do piso rangendo sob meus passos ecoa pelo corredor, como se cada batida lembrasse que eu nunca estive realmente seguro. A casa onde vivo pertence ao patriarca da nossa família: Vittorio Moretti, meu pai. Mas o que isso significa de verdade? Nada além de dias de treinamento exaustivos, quase torturantes, em que errar jamais foi uma opção.

Meu dever sempre foi servir à família - sem questionar, sem reclamar, sem sentir. Fui forjado desde cedo para isso: para me tornar uma lâmina afiada, fria, incapaz de hesitar. Apenas obedecer, apenas cumprir, apenas carregar as vontades do chefe da família.

Mesmo que eu me quebrasse no processo. Mesmo que, hoje, eu já não saiba mais quem sou quando não estou com sangue nas mãos.

Don Vittorio mandou me chamar. Não havia escolha. Nunca há. Recusar ou atrasar significaria desafiar o patriarca - e eu já aprendera que, sob este teto, até a sombra do atraso é uma sentença. Subi do porão, deixando para trás o ar pesado, rançoso, impregnado pelo cheiro metálico do sangue, misturado a dejetos e ao desespero que se arrastava pelas paredes. O lugar parecia respirar junto comigo, como se me lembrasse de quem eu era quando ninguém estava olhando.

Lá embaixo o traidor ainda respirava. O som era frágil, irregular. Uma vida suspensa por um fio. E eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria minha responsabilidade cortá-lo.

Para o mundo além das nossas fronteiras, eu não passava de um caso perdido, alguém sem valor. Talvez meu pai também me visse assim. Ainda assim, aqui, dentro destas paredes, sem que o mundo soubesse, eu era quem lidava com a sujeira da Família Moretti.

Minha irmã, Bianca, era o braço direito de Vittorio. Quando nosso pai não estava presente, cabia a ela comandar, administrar os negócios diários e repassar as ordens para os que ocupavam os degraus mais baixos da hierarquia. Bianca carregava o sangue Moretti com orgulho, e meu pai via nela uma continuidade mais fiel do que em mim. Fria, implacável, ambiciosa - a filha que ele moldou para ser sua extensão perfeita. Eu a admirava em silêncio, mas também temia sua lealdade cega. Às vezes me perguntava se ela era minha aliada... ou apenas mais uma sombra do Don, pronta para me vigiar e, se preciso, me destruir. Encontrei Bianca no corredor, diante da porta do escritório do Don. A postura ereta, o queixo levemente erguido, os cabelos escuros e aqueles olhos de tempestade a tornavam a réplica perfeita de nosso pai.

Eu, ao contrário, carregava outras marcas. Olhos castanhos sem brilho especial, cabelos ruivos, diferentes demais para a linhagem Moretti - lembranças vivas de uma mulher que nunca conheci. Minha mãe. Ela morreu no dia em que nasci. E, desde então, trago a sensação de que respiro em dívida.

Talvez seja esse o motivo do ódio que meu pai me lança cada vez que me olha. Para ele, não fui um filho. Fui a faca que lhe roubou a esposa, o peso que lhe destruiu a única fraqueza. Cresci com essa culpa silenciosa, como um fantasma colado à pele. Um fantasma que me lembra, a cada passo, que talvez eu nunca vá conseguir ser mais do que o erro que me trouxe ao mundo.

- Ele está esperando você. - disse Bianca, sem olhar diretamente nos meus olhos.

Passei por ela, mas sua mão fria tocou meu braço, firme demais para ser um gesto fraterno.

- Alessio... - sua voz soou baixa, quase um sussurro. - Cuidado com o que diz lá dentro. Sabe como ele odeia quando você... se esquece do seu lugar.

Sorri, um daqueles sorrisos que escondem dentes afiados.

- Sempre tão preocupada comigo, sorella. - murmurei. - Às vezes acho que não sei se devo agradecer... ou desconfiar.

Bianca finalmente me fitou. Seus olhos eram um espelho do gelo de Vittorio, mas havia algo mais: uma centelha de orgulho, talvez de rivalidade, talvez de poder.

- Não confunda minha preocupação com fraqueza. - retrucou. - Um erro seu é uma oportunidade minha.

Ela soltou meu braço e abriu espaço para que eu entrasse. O cheiro de fumaça de charuto escapava do escritório. E, enquanto atravessava a porta, não pude evitar a sensação de que Bianca, mais do que qualquer outro, poderia ser tanto minha salvação... quanto minha ruína.

Meu pai está sentado à cabeceira da sala de reuniões da mansão, o olhar frio como lâmina. Eu sei que cada palavra dele é uma armadilha, cada gesto uma sentença.

- Alessio. - ele começa, sem levantar a voz, mas cada sílaba pesa como um soco - Sente-se. Precisamos conversar.

Não me aproximo rápido o suficiente, e ele bate com a mão na mesa. O impacto reverbera pelo meu peito.

- Não me faça repetir. Agora. - ele ordena.

Obedeço, sentando-me com cuidado, como quem pisa em terreno minado. Ele me observa em silêncio, o olhar dele queimando como ácido em cada centímetro da minha pele. Minha simples presença já parece incomodá-lo - e agora, neste estado, mais ainda. O sangue seco sob minhas unhas brilha à luz fraca do escritório. As cicatrizes em minhas mãos, a maioria causada por ele mesmo, parecem causar-lhe repulsa. A roupa, marcada por manchas ainda mais recentes, carrega o rastro de outros fluidos, lembranças tangíveis da pessoa de quem eu estava arrancando informações. Cada cheiro, cada resquício, cada marca, era um lembrete de que eu fazia parte de algo que nunca poderia ser limpo ou esquecido. E, mesmo assim, sento-me diante dele, respirando devagar, com o corpo tenso, tentando ser apenas a lâmina afiada e controlada que meu pai exige. Vittorio não precisa falar; a sala inteira parece vibrar com sua presença. Ele finalmente ergue os olhos, medindo-me com aquele olhar que sempre sabe demais.

- Alessio - começa, a voz baixa, cortante, carregada de autoridade - Há algo que precisa ser resolvido.

Meu coração se aperta, mas mantenho a expressão impassível. Sei que qualquer reação pode ser usada contra mim.

- Você vai se casar com Giovanni Rinaldi. - as palavras escapam de sua boca como apenas um mero acontecimento comum de seu dia, não como a sentença condenatória que era a minha vida.

Mas a frase cai na sala como um golpe. Giovanni Rinaldi. A família rival, inimiga jurada dos Moretti. A família que juramos destruir, a casa que nos odeia tanto quanto nós a odiamos. Meu cérebro trava. Por um instante, penso em recusar, em fugir, em quebrar tudo ao meu redor. Mas o que Vittorio faria? Me deixaria vivo? Ou apenas me transformaria em lembrança? O casamento não é questão de afeto ou escolha. É um pacto de poder, uma aliança forçada, uma prisão dourada. Sinto o sangue esquentar nas veias, e por um instante a máscara de frieza quase escapa. Mas controlo a respiração, respiro devagar, como sempre aprendi.

- Pai... - começo, a voz saindo mais baixa do que gostaria -. Não podemos...

- Não podemos? - Ele se levanta, e a proximidade faz meu coração acelerar. - Alessio, você é meu filho. Não discute comigo. Não aqui. Não nunca.

Sinto o punho dele acertar a mesa tão perto da minha mão que o choque do impacto sobe pelos meus ossos. É um aviso. Um lembrete de quem manda. Cresci aprendendo a engolir cada sensação de dor, cada ameaça velada, cada humilhação disfarçada de lição de vida.

- Isso é pelo bem da família - ele continua, aproximando-se ainda mais -. Pelo poder. Pelo controle. Você é meu filho, Alessio. Aprenda a aceitar o peso do que carrega.

Respiro fundo, sentindo o ferro da raiva e do medo se misturar no meu sangue. Sinto vontade de gritar, de cuspir verdades que queimam minha garganta, mas engulo tudo. Aprendi cedo: se mostrar vulnerável, está morto. Literalmente.

- Pai... - consigo articular, tentando medir cada sílaba -. Isso... -

- Não discuta. - Vittorio interrompe, levantando-se com a imponência de quem domina tudo. - Não há espaço para objeções. Você fará o que for necessário para manter a família intacta. E para manter o nosso poder.

Observo cada detalhe: o charuto na mão, o olhar impiedoso, a presença que parece ocupar cada canto da sala. Para ele, minhas emoções não importam. Para ele, eu não sou Alessio; sou apenas uma peça no tabuleiro, um peão treinado para obedecer.

- Você pensa que eu não sei? As... coisas que você faz escondido? - a voz dele escorre desprezo, venenosa em cada sílaba. Sinto meu sangue gelar.

Ele sabe. Claro que sabe. Eu havia sido tolo ao acreditar que minha vida pessoal podia permanecer oculta. Já estive com homens, já estive com mulheres. Sempre cuidadosamente escondido. Sempre calculando cada passo, cada deslize, cada detalhe. Sempre tentando me proteger - ou, talvez, proteger algo que nem sei mais se existe: a minha própria liberdade.

O ódio e o medo se misturam, queimando minha garganta, mas eu engulo qualquer reação. Não posso ceder. Não aqui. Não nunca. Cada fibra do meu corpo grita por resistência, mas meu rosto mantém a máscara de frieza que ele espera.

E, mesmo assim, uma parte de mim quer gritar: "Você não me controla completamente. Nunca me controlará." Mas a voz permanece presa, e eu respiro devagar, contando cada segundo, medindo cada pensamento. Porque no mundo de Vittorio Moretti, uma fraqueza é suficiente para destruir tudo - até mesmo a própria alma.

Engulo a raiva, o choque, o desespero. Mais uma vez aprendo que o mundo que meu pai governa não tem espaço para fraqueza. E que eu, Alessio Moretti, preciso sobreviver - não importa a que custo.

Quando tento falar, minha voz controlada contrasta com o turbilhão que me atravessa por dentro.

- Senhor, os Rinaldi não aceitarão esse acordo. Porque não Bianca -

A frase morre na garganta. Um golpe cortante atravessa meu rosto antes que eu possa terminar. O impacto é seco, letal, e um estalo surge no meu ouvido enquanto meus joelhos tremem. Sinto o gosto metálico do sangue se espalhando pela boca.

- Você acha que eu entregaria minha filha, minha herdeira, para aquele bando de cães imundos? - ele grita, cada palavra carregada de fúria, como se a simples ideia fosse uma afronta pessoal.

O mundo ao meu redor parece girar. Cada músculo do meu corpo quer reagir, mas a memória de anos de treinamento, de obediência e sobrevivência, me prende.

Claro. Onde eu estava com a cabeça ao sequer imaginar que ele entregaria sua "princesa" aos leões? A dor lateja, mas a raiva ainda ferve sob a pele. Respiro fundo, controlando cada fibra do meu corpo. Aprendo, mais uma vez, que neste mundo, sentir é luxo. Sobreviver é a única regra.

Sento-me novamente, erguendo o queixo, mostrando que não cedi totalmente - não por completo. Cada músculo do meu corpo está alerta, mas minha voz sai calma, quase cortante:

- Claro, Senhor. Ninguém ousaria desafiar o poder da Família Moretti. Nem mesmo os Rinaldi.

Vittorio me observa, o olhar afiado como uma lâmina, pesando cada sílaba, cada movimento meu. Ele caça qualquer sinal de fraqueza, qualquer tremor escondido. E eu lhe ofereço apenas o que ele deseja enxergar: silêncio e controle. Uma presença fria.

- Então você entende, Alessio... - a voz dele desce, grave, carregada de ameaça. - Você será parte desse acordo. Com Giovanni Rinaldi.

O nome explode dentro de mim como um veneno. Giovanni. A família rival, inimiga de sangue. Agora não mais apenas um inimigo, mas uma sentença. Um contrato. Uma prisão disfarçada de aliança. O ar se torna espesso demais, cada respiração me arranha por dentro. Quero gritar, mas engulo a fúria, forçando cada músculo a obedecer. Cada pensamento precisa ser calculado. Não posso ceder. Não diante dele. Vittorio prossegue, implacável:

- O contrato já foi redigido. Nos termos, está apenas que Giovanni Rinaldi deve se casar com um descendente meu. Não foi especificado com qual. E, como você já sabe, Bianca está comprometida com os De Luca.

O silêncio que se segue é ensurdecedor. Sinto as paredes se fecharem ao meu redor, como se todo o salão se tornasse uma cela invisível. O nome de Giovanni lateja em minha mente, pulsando como uma ferida aberta.

Meus punhos ardem com o desejo de se cerrar, mas não me permito. Sei que um único gesto fora de controle pode ser lido como insubordinação. Vittorio não perdoa fraqueza.

- Então... sou eu. - minha voz sai contida, quase um sussurro engolido pela tensão.

Ele não responde de imediato. Apenas me fita, como se quisesse gravar no meu rosto o exato momento em que compreendo o peso da sentença. Por fim, o canto de sua boca se ergue em um sorriso breve, mas cruel.

- Sim, Alessio. É você.

A confirmação cai sobre mim como uma corrente gelada. Dentro do meu peito, a raiva se mistura ao medo, e ambos se transformam em uma chama abafada, contida à força. Não posso permitir que ele veja. Não posso permitir que ele vença.

Mas já sinto o gosto amargo da prisão que se fecha em torno do meu destino.

- Vejo em seus olhos a chama da rebeldia - Vittorio comenta, a voz lenta, estudada, como se acariciasse uma ferida aberta. - Mas não se engane, Alessio. Rebeldia não passa de fraqueza disfarçada. E fraqueza... não tem lugar na nossa família.

Cada palavra dele desce pesada, como pedras amarradas ao meu corpo me puxando para o fundo.

- Você acha que pode escolher? - ele continua, inclinando-se um pouco, reduzindo a distância até que sua presença se torne sufocante, quase física. - Desde o dia em que nasceu, seu destino já estava escrito pelas minhas mãos. Giovanni apenas será... a tinta final desse contrato.

Engulo seco. Meu coração martela contra as costelas, mas por fora mantenho a máscara inexpressiva. É um jogo de sobrevivência, e sei que, diante de Vittorio, o menor vacilo pode ser o bastante para que ele me esmague.

Ele se recosta na poltrona, o gesto calculadamente calmo, como um rei entediado que dita a sentença de um súdito.

- Vai aprender a controlar até o que sente, Alessio. Porque no instante em que suas emoções se tornarem visíveis... no instante em que alguém perceber que ainda é humano... esse será o dia em que você perderá tudo.

A sala parece se encolher. O ar, rarefeito. Ele não está apenas me entregando a Giovanni. Está moldando meu silêncio, minhas reações, meu corpo inteiro, como se quisesse me transformar em pedra. Um herdeiro obediente. Uma arma sem vontade. Mas por dentro, mesmo esmagado, uma parte de mim ainda resiste, latejando como uma ferida que se recusa a cicatrizar.

- Entendido - murmuro, a voz tão fria quanto meu olhar. - Farei o que for necessário para a família.

Por dentro, uma tempestade se forma. Giovanni Rinaldi não é apenas um nome; é um enigma que agora se tornará meu destino. E eu? Eu não permitirei que esse destino me quebre. Aprendi cedo: sobreviver significa jogar, calcular, usar tudo - até a própria dor - como arma.

Olho meu reflexo na superfície polida da mesa. O mesmo olhar frio que ele gosta de ver, calculista, impenetrável. Por fora, a máscara perfeita. Por dentro, cicatrizes profundas e medos que não posso mostrar.

Mas faço uma promessa silenciosa: não serei ele. Não serei Vittorio Moretti. Não importa o casamento, não importa o jogo, não importa quanto sangue ele espere que eu derrame. Meu coração, minha mente, meu controle... nada disso será dele.

O casamento com Giovanni será apenas um tabuleiro. E eu? Aprendi cedo a jogar para vencer. Sempre.

Saí do escritório com o nome dele queimando na minha mente. Giovanni Rinaldi não era apenas minha prisão; era um território desconhecido e perigoso.

Meu celular vibrou. Um número desconhecido. O áudio tinha apenas três segundos, mas o peso de uma vida inteira.

"Boa noite, noivo."

A voz era baixa, predatória. Não havia emoção, apenas uma promessa sombria.

"Espero que você morda."

Capítulo 2 O CONTRATO

Giovanni

O contrato caiu sobre a mesa como uma condenação que eu pretendia transformar em arma. O couro do portfólio estalou ao tocar a madeira polida, um som seco que pareceu selar o destino de alguém.

Meu avô não levantou a voz. Nunca levantava. O silêncio dele sempre foi mais eficaz que gritos, mais definitivo que tiros.

- Não pense que isso me agrada, Giovanni.

Segurei o copo de cristal. Ele rangia sob meus dedos, frágil demais para conter o impulso de esmagá-lo. O uísque refletia a luz âmbar do escritório como uma lâmina líquida, oscilando a cada batida do meu coração.

- Você quer que eu aceite um Moretti dentro da minha casa? - perguntei, a voz contida.

Ele me observou por cima dos óculos, avaliando-me como se eu fosse uma peça defeituosa de uma coleção rara.

- Ou você aceita, ou Lucca morre politicamente antes de chegar ao conselho.

O nome do meu irmão atravessou o espaço entre nós como uma ameaça calculada. Lucca era jovem demais. Inteligente demais. Caótico demais. Bom demais. E, no nosso mundo, a bondade era uma falha estrutural que derrubava impérios.

- Isso não é uma opção - respondi, os nós dos dedos brancos em volta do copo.

- É a única.

O patriarca Rinaldi recostou-se na cadeira de couro, as mãos entrelaçadas sobre o abdômen com a calma de quem já venceu a guerra. Ele não pedia; ele instruía. E suas instruções eram ordens com verniz de destino.

Ele abriu a pasta lentamente. A foto estava presa por um clipe metálico frio.

Cabelos ruivos, desalinhados. Pele clara pontuada por sardas. E os olhos... eram atentos demais. Um olhar que ainda não conhecia o peso da submissão. Bonito demais para ser filho de Vittorio Moretti.

- Alessio Moretti - leu meu avô, saboreando o nome como um vinho caro. - Segundo filho. Criado longe dos negócios. Um garoto limpo.

Limpo. A palavra soou como uma provocação deliberada.

Peguei o dossiê. Meus dedos percorreram o papel granulado como se já tocassem a pele dele. O rosto na foto tinha algo irritante. Desafiador. Era o rosto de alguém que ainda acreditava que possuía o luxo de fazer escolhas.

- Vittorio não envia peças sem propósito - comentei, analisando a linha do maxilar do garoto.

Meu avô sorriu. Um gesto mínimo, quase imperceptível.

- Exato. Por isso você vai deixá-lo entrar. E vai garantir que ele nunca queira sair.

Fechei a pasta. O som ecoou como um veredito no escritório silencioso.

- Está me pedindo para confiar em um Moretti?

- Estou pedindo para usar um.

O silêncio se instalou, pesado como chumbo. Observei a foto novamente através do plástico transparente. Aqueles olhos claros... eles ainda não haviam aprendido a mentir.

- Ele tem olhos de quem não sabe se ajoelhar - observei.

Meu avô ergueu o copo em um brinde silencioso.

- Então quebre-o.

A frase caiu entre nós como uma bênção profana. Não havia ódio na voz dele, apenas o pragmatismo gélido de quem decide quem vive e quem serve de exemplo.

- Faça esse garoto se dobrar à sua vontade, Giovanni. Os Rinaldi não se ajoelham. Eles ensinam os outros a fazê-lo.

A porta se fechou atrás dele, deixando-me sozinho com o rosto de Alessio Moretti queimando em minhas mãos. Sempre gostei de coisas intactas. O verdadeiro prazer nunca esteve na posse, mas na fratura. Naquele momento exato em que algo perfeito deixa de ser funcional para se tornar submisso.

Abri o dossiê novamente.

Alessio Moretti. Vinte e três anos. Educação internacional. Pouco envolvimento oficial com os negócios da família. Mas nada em Vittorio era oficial. O padrão era óbvio: o velho Moretti havia criado o filho como uma arma adormecida, uma lâmina escondida em uma bainha de seda. E agora, ele estava me entregando essa arma.

Aproximei-me da janela blindada. O reflexo do vidro da janela devolveu meu próprio olhar. Azul de um lado. Âmbar do outro. Dois juízes avaliando o destino do mesmo homem.

Roma se estendia abaixo, um mapa de domínios e sombras. Tudo ali pertencia aos Rinaldi. Em breve, ele também pertenceria.

Imaginei o primeiro dia em que ele perceberia que não havia saída. A primeira vez que sua voz falharia ao confrontar a minha. A primeira vez que ele pediria permissão para algo tão simples quanto respirar o mesmo ar que eu.

Meu polegar seguiu a linha do maxilar dele na imagem, pressionando o papel.

- Você ainda não sabe a quem pertence, Alessio.

Peguei o celular. O dossiê trazia o contato privado. Gravei o áudio sem hesitar. Palavras eram armas, e eu sempre soube exatamente onde cortar para deixar a cicatriz mais profunda.

- Boa noite, noivo - minha voz saiu baixa, vibrando com uma predação contida. - Espero que você morda.

Enviei.

O som da notificação foi um clique metálico no silêncio. O impacto, eu sabia, seria sísmico. Vittorio achava que estava me oferecendo uma peça política para equilibrar o tabuleiro.

Ele estava me oferecendo uma posse.

A Vault pulsava abaixo de mim como um coração artificial, injetando adrenalina e pecado nas veias da cidade. Música, corpos, dinheiro, medo. Tudo perfeitamente sincronizado sob meu controle, um ecossistema de sombras onde eu era o único predador no topo da cadeia.

- Senhor Rinaldi.

Hugo surgiu ao meu lado. O cheiro de tabaco o acompanhava - mesmo que o cigarro tivesse sido apagado muito antes de ele entrar. Hugo era meu escudo. Leal desde a infância. Treinado para proteger. Rígido como uma ordem escrita em papel oficial. Sua presença era o sinal de que o mundo real exigia minha atenção.

- O carregamento chegou - ele informou, a voz baixa o suficiente para ser engolida pela batida do techno. - Armas e drogas prontos para distribuição.

Assenti, sem desviar o olhar do fluxo de pessoas no andar de baixo.

- As rotas três e sete estão sob teste da concorrência. Confirme a infiltração antes de mover qualquer quilo.

- Cortei as comunicações externas. Apenas códigos. Nenhum caminhão sai sem meu sinal - Hugo respondeu. Ele hesitou por um segundo. Um lapso raro para um homem como ele.

Arqueei a sobrancelha, finalmente encarando seus olhos azuis afiados.

- O que foi?

- Encontraram um homem de Fabrizio. Desfigurado. Reconhecido apenas pelas tatuagens no antebraço.

- Onde?

- Um beco a duas quadras da residência dele. Foi um aviso, senhor. Estético e brutal.

- Quem fez o serviço? - perguntei, sentindo o gosto metálico da curiosidade. Fabrizio era um incômodo, mas quem quer que o estivesse caçando tinha um senso de teatro que eu respeitava.

Hugo respirou fundo, como se a palavra pesasse.

- A Víbora.

Víbora. A lenda. O assassino sem rosto, o fantasma que surgia nos pontos cegos da máfia quando a diplomacia falhava e o sangue precisava ser derramado sem rastros. Sorri, um movimento frio que não chegou aos meus olhos.

- Descubra tudo. Quero saber se esse fantasma está caçando para nós ou contra nós.

Ele desapareceu na multidão esfumaçada. A Vault continuava viva, vibrando contra as solas dos meus sapatos, mas minha mente já havia deixado o clube. Estava em outro lugar. Estava em Alessio.

Vittorio me enviara o garoto como uma oferta de paz, um ramo de oliveira estendido sobre um campo de minas. Mas eu nunca tive paciência para a paz. Eu preferia ofertas que implorassem, que sangrassem, que reconhecessem a derrota antes mesmo do primeiro golpe.

Horas depois, de volta ao silêncio sepulcral do meu escritório, abri o dossiê novamente. Alessio não era apenas um noivo; era uma mensagem cifrada. Um lembrete de que a guerra entre os Rinaldi e os Moretti nunca havia acabado - ela apenas mudara de formato, trocando os fuzis por alianças de ouro.

Um relatório psicológico específico, grampeado ao fundo, chamou minha atenção. Li as entrelinhas, as notas marginais de terapeutas pagos para mentir.

Vittorio havia quebrado o garoto antes de me entregá-lo.

Foi um movimento cruel. E terrivelmente estratégico. Ele me enviara uma peça já rachada, esperando que eu terminasse o serviço ou que me cortasse nos estilhaços.

Fechei o relatório com um estalo seco. Não me importava como ele havia sido moldado no passado. A única coisa que importava era como ele se dobraria sob minhas mãos a partir de agora.

Peguei o telefone. Nenhuma resposta à minha mensagem. Sorri para a tela escura. O silêncio de Alessio era muito mais interessante do que qualquer palavra de submissão imediata. O silêncio dele tinha dentes.

O contrato ainda estava sobre a mesa, as fibras do papel parecendo absorver a luz da luminária. A assinatura de Vittorio. A do meu avô. A minha. Eu não lembrava do momento exato em que a caneta tocou o papel, mas lembrava perfeitamente de aceitar o desafio. Olhei para o documento como se fosse um mapa de guerra.

Casamento. Aliança. Paz. Mentiras convenientes para os jornais e para os aliados menores. Na prática, aquilo era uma captura de território. Uma rendição disfarçada de banquete.

Fechei os olhos por um instante. Imaginei Alessio no escuro de seu quarto, ouvindo minha voz no áudio. O coração acelerando contra as costelas. A raiva subindo pela garganta, misturada ao medo e a uma curiosidade inevitável.

A curiosidade era sempre a primeira fissura na resistência. E eu era um especialista em alargar rachaduras.

Abri os olhos e encarei a foto dele uma última vez antes de apagar a luz.

- Você é meu agora.

O contrato já dizia isso por mim. Mas eu faria questão de que ele o dissesse com a própria voz.

Capítulo 3 A PRIMEIRA PRESA

Giovanni

O salão da boate era território neutro apenas na aparência. Sob o brilho dos neons e o veludo das áreas VIP, o ar era espesso com o cheiro de tabaco caro e intenções letais. Homens em ternos sob medida, mulheres treinadas para servirem de camuflagem estética e armas ocultas sob cortes italianos. Ali, acordos nasciam com um brinde e morriam sem direito a funeral.

Então, ele entrou.

Alessio Moretti não caminhava como um herdeiro sendo entregue ao carrasco. Caminhava como alguém que já havia aprendido a sobreviver a predadores muito maiores que ele.

Ruivo. As sardas pareciam uma insolência impressa na pele clara. Ele não era baixo, mas a diferença física entre nós tornou-se óbvia no instante em que nossos olhares colidiram; ele precisou erguer levemente o queixo para sustentar o confronto. Seus olhos eram atentos demais para alguém supostamente criado sob controle absoluto. Ele não buscava o chão, não oferecia sorrisos de cortesia. Ele observava.

Isso o tornava perigoso. E terrivelmente atraente para o meu tipo de disciplina.

Quando nossos olhares se cruzaram, ele não desviou.

E então aconteceu algo raro. Ele reparou nos meus olhos. A maioria das pessoas tenta não olhar diretamente por muito tempo. Algumas fingem não notar. Outras desviam rápido demais.

Alessio não.

O olhar dele desceu por uma fração de segundo, registrando a diferença das cores. A velha superstição da minha família sempre dizia que aquilo significava duas naturezas vivendo dentro do mesmo homem. Os Rinaldi nascem com olhos diferentes quando o sangue decide escolher um rei.

Eu nunca dei muita importância à lenda. Mas era sempre interessante observar quando alguém percebia. Porque quase todos têm a mesma reação.

Um breve atraso na respiração. Um pequeno cálculo instintivo. Como se, por um momento, o cérebro tentasse decidir qual das duas coisas dentro de mim era mais perigosa.

Alessio demorou um segundo a mais do que o normal. Depois sustentou o olhar.

Erro número um.

Peguei um copo de uísque e atravessei o salão. As conversas morriam conforme eu passava, não por respeito, mas por memória. Ninguém que cruzava meu caminho esquecia o preço da audácia.

- Giovanni Rinaldi.

Ele apertou minha mão. O aperto era firme, sem a umidade do nervosismo. Sustentou o contato visual com uma naturalidade calculada, recusando-se a ceder à submissão automática que o nome Rinaldi costumava exigir. Os relatórios de Vittorio estavam errados. O garoto não estava "quebrado". Ele estava apenas esperando.

- Alessio - respondi.

Sua voz era baixa e controlada, mas havia algo vibrando sob a superfície: uma raiva contida, um orgulho mal disfarçado e uma fome perigosa de não ser reduzido a um objeto de troca.

- Então, você é o acordo - murmurei, deixando o cinismo transparecer.

- E você é a sentença - ele rebateu de pronto.

Um canto da minha boca se ergueu. Gostei da precisão daquela escolha de palavras.

- Vamos conversar em particular.

Não era um convite. Era a constatação de um fato. Caminhei em direção à área restrita sem olhar para trás. Ele me seguiu sem escolta, sem hesitar e sem pedir permissão. Erro número dois.

A sala lateral era pequena, isolada da música por paredes acústicas. Fechei a porta e girei a chave. O clique metálico ecoou como o gatilho de uma arma sendo puxado. Guardei a chave no bolso, mantendo os olhos fixos nele.

Alessio não se sentou. Não fez perguntas. Apenas esperou, os ombros tensos como se estivesse pronto para uma luta de rua ou uma fuga desesperada. Animais inteligentes sempre observam antes de agir.

Encostei na mesa, bebendo com uma calma deliberada.

- Seu pai vendeu você caro, Alessio. Ele acredita que esse contrato vai me manter sob controle.

- E vai? - A pergunta dele foi um desafio direto. Corajoso demais. Ou puramente suicida.

Aproximei-me. Não com rapidez, mas com uma cadência predatória. Queria que ele sentisse cada centímetro de território que eu reivindicava para mim. A diferença de altura fez o resto do trabalho; eu não precisava de violência para ocupar o espaço dele. Inclinei levemente a cabeça, obrigando-o a erguer a dele ainda mais para não perder o contato visual.

- Controle não é algo que se entrega em um papel timbrado - sussurrei. - É algo que você só percebe que perdeu quando já é tarde demais para lutar.

Ele sustentou a posição. As pupilas estavam dilatadas, a respiração começando a falhar na cadência, mas a postura permanecia intacta.

- Então, tome o controle.

Erro número três.

Segurei o queixo dele. Não usei força bruta, mas imprimi intenção no toque. Mantive seu rosto inclinado para cima, forçando-o a me encarar de um ângulo de total vulnerabilidade. O pulso dele acelerou visivelmente na base do pescoço, o maxilar tensionou, mas ele não recuou.

- Você sabe o que acontece com quem me desafia? - murmurei, invadindo o pouco espaço que restava entre nós.

- Imagino.

Aproximei-me até meu hálito tocar sua orelha. Ele precisou inclinar a cabeça para o lado para acomodar minha proximidade; eu apenas desci o olhar pelo pescoço dele.

- Não, Alessio. Você não faz a menor ideia.

Soltei-o abruptamente. Ele respirou fundo, recuperando a compostura com uma velocidade impressionante para alguém que não deveria estar acostumado a ser dominado dessa forma. O corpo dele ainda estava rígido, ajustando-se à nova geometria de poder que eu acabara de desenhar na sala.

- Esse casamento não é um jogo para mim - ele disse, tentando retomar o chão.

- Para mim, é - sorri lentamente. - E eu nunca perco.

Ele inclinou a cabeça, os olhos faiscando.

- E se eu não cooperar?

Ele não se movia como uma presa comum. Movia-se como alguém que sabia exatamente onde morder para causar o máximo de dano. Aproximei-me novamente, até que nossos corpos estivessem a milímetros de distância. Eu não precisava encostar nele; minha presença era o suficiente para sufocá-lo.

- Então você vai aprender que "cooperação" é apenas a palavra que os sobreviventes usam para a rendição.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ele não recuou nem um milímetro. Perfeito.

- Seu pai acha que você é descartável - continuei, observando o maxilar dele travar com a menção a Vittorio. - E eu gosto de peças descartáveis. São as que mais tentam provar que têm valor.

Toquei o colarinho da camisa dele, ajustando-o com uma intimidade possessiva que pareceu queimá-lo. Ele engoliu em seco, mas o olhar permaneceu fixo no meu.

- Por isso me chamou aqui? Para me ameaçar?

- Para avisar. - Avaliei-o de cima. Ameaças ditas em voz alta perdem o veneno; as implícitas moldam a alma. - Se tentar fugir, me desafiar ou me envergonhar... você vai descobrir o que significa estar verdadeiramente sozinho no mundo.

Ele entendeu. O brilho de compreensão nos olhos dele foi quase gratificante.

- Entendido - a palavra saiu firme, mas a fachada estava começando a trincar.

- Você acha que o desafio é sua liberdade, Alessio. - Afastei-me, guardando o copo vazio. - Mas para mim, o seu desafio é apenas um convite.

Abri a porta. Antes de sair, voltei-me apenas o suficiente para que minhas palavras o alcançassem como uma promessa sombria.

- Vou gostar de descobrir quanto você aguenta antes de quebrar.

Saí sem olhar para trás. O barulho da boate me atingiu como uma onda física - luzes, música, o cheiro do poder. Mas algo havia mudado. Eu ainda sentia o peso do olhar dele queimando minhas costas.

Ele era menor que eu. Tinha menos recursos, menos armas, menos tempo de jogo. E, ainda assim, ocupava um espaço desproporcional dentro da minha cabeça.

Pela primeira vez em anos, eu não conseguia decidir se queria apenas quebrá-lo... ou se queria transformá-lo na lâmina que cortaria o mundo por mim.

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