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Liebling: O Acordo de uma Semana

Liebling: O Acordo de uma Semana

Autor: Carla Valenca Costa
Gênero: Bilionários
Uma professora de dança brasileira com o ritmo nas veias. Um CEO alemão implacável com o controle do mundo em suas mãos. Uma noite em Mônaco onde todas as regras são quebradas. Camila Rios é puro movimento, ritmo e o calor do Rio de Janeiro. Como professora de dança, ela está cruzando a Europa em uma turnê disputada, ensinando sua arte e deixando sua marca por onde passa. Ela tem data para voltar e sabe exatamente quem é. Mas quando uma noite em Monte Carlo a leva até as portas do Le Masque, um clube liberal ultraexclusivo, ela decide, apenas por uma noite, dançar no ritmo de um desconhecido. Ela só não esperava atrair os olhos de um predador social. Friedrich Amsberg está acostumado a ditar as regras, seja no mercado de ações de Zurique ou nos bastidores do seu império tecnológico em Düsseldorf. Alto, magnético e de uma arrogância fria e calculista, ele nunca aceita um "não". No segundo em que ele vê aquela silhueta tropical de lantejoulas prateadas desafiando seu espaço, o jogo começa. O que deveria ser apenas um encontro anônimo e passageiro se transforma em uma invasão mútua. Friedrich quer a posse total; Camila recusa-se a ser domesticada. Entre coberturas minimalistas, marcas na pele que a maquiagem não consegue esconder e juros altíssimos cobrados entre quatro paredes, eles vão descobrir que a posse é um vício perigoso. E que, no tabuleiro deles, quem tenta manter o controle é o primeiro a quebrar. Qual é o risco de se entregar ao proibido quando se está a milhares de quilômetros de casa? Ceder aos desejos mais intensos é fácil sob a ilusão do anonimato e com a certeza de que você nunca mais verá aquelas pessoas. Era para ser apenas uma noite de liberdade em Mônaco... o erro foi deixar que ela se transformasse em uma semana implacável de posse e controle em Frankfurt.
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Capítulo 1 A Presa

Friedrich

Mônaco, Le Masque.

09/Junho/2023, 23h40.

O som que reverbera pelas paredes de veludo é um dark progressivo denso, com batidas que não se ouve, se sente no plexo solar. Mas o que faz meu sangue latejar não é a música. É a antecipação.

Desço a escada em caracol sentindo o cheiro de luxo, suor e segredos que só um lugar como o Le Masque consegue esconder. Ajusto a minha máscara de cetim preto. Ela me dá o anonimato que eu preciso para ser o canalha que o mundo dos negócios não me permite ser abertamente.

O salão se abre diante de mim, um mar de corpos mascarados e luxúria contida. Mas meus olhos, treinados para detectar o que é valioso, ignoram o mármore e o cristal. Eles travam nela.

Lá está ela. Possuindo aquela pista. Sozinha.

O suor faz o cabelo escuro grudar na nuca de um jeito que me dá vontade de passar os dedos ali e puxar, só para ver se ela me enfrentaria com a mesma audácia com que encara o vazio.

O vestido de lantejoulas prateadas parece metal líquido que abraça suas curvas e o decote em V é um convite perigoso, mas são as costas nuas, descendo até aquela cintura insultuosamente estreita, que me fazem travar o maxilar.

Himmel, Arsch! Puta que pariu... aquela bunda. Arredondada, firme, um monumento à tentação que se move com uma cadência que me faz esquecer como se respira. É uma silhueta escultural, poderosa, que grita que ela é dona de si mesma.

Observo de longe, encostado a uma coluna, com os braços cruzados e um sorriso cínico que a máscara esconde. Vejo um idiota tentar a sorte. Ela o descarta com um gesto seco, sem nem perder o ritmo.

Atrevida. Gosto disso.

Adoro mulheres que sabem dizer "não", porque torna o "sim" muito mais saboroso.

Ela dança para si mesma, sem pedir permissão, sem buscar olhares. E é exatamente essa independência que me irrita e me atrai como um imã. Sinto o calor subir pelo meu pescoço.

Quero ver o que acontece com essa pose de intocável quando eu decidir que o tempo dela de dançar sozinha acabou. Afasto a máscara apenas para ajustar o foco, sem desviar os olhos do corpo por um segundo sequer. Não avanço.

Ainda não.

Sou um estrategista, e estou saboreando o momento antes do ataque.

Permaneço ali, no limite entre a sombra e a luz da pista, sentindo o desejo estalar como eletricidade. Ela ainda não me viu, mas eu já decidi: hoje à noite, ela vai descobrir que encontrou alguém tão implacável quanto.

Mantenho meu copo de whisky em uma mão, sentindo o frio do cristal contra a palma, enquanto a outra repousa no bolso da calça do meu terno sob medida. A máscara de cetim aperta levemente as têmporas, mas o leve desconforto me mantém focado. Meus olhos não saem dela.

O modo como os quadris se movem, uma fluidez que não parece vir de esforço, mas de instinto, desequilibra a ordem desse salão. As lantejoulas desenham a curva da sua bunda a cada passo lateral, e eu me pego apertando o copo com mais força do que o necessário.

Um homem de máscara dourada tenta se aproximar, tocando seu braço. Vejo a rapidez do seu reflexo. Ela não recua como uma vítima; ela se esquiva como uma predadora que não quer ser incomodada. O modo como mal olha para ele, mantendo o queixo erguido e os olhos perdidos na própria dança, faz meu maxilar travar.

Atrevida.

Ela termina um movimento, girando o corpo, e por um milésimo de segundo, o olhar varre a penumbra onde eu estou. Eu não me movo. Não recuo para as sombras. Deixo que ela sinta o peso do meu escrutínio. Quero que ela saiba que está sendo caçada, não por um amador, mas por alguém que entende exatamente o que essa sua autoconfiança esconde.

Tomo um gole do whisky, o líquido queimando a garganta e alimentando o fogo que começou a arder no meu baixo ventre desde que a vi. Sua respiração parece mais pesada agora, o peito subindo e descendo sob o decote profundo, e eu me pego acendendo por dentro se é pelo cansaço da dança ou se ela finalmente percebeu que a temperatura ao seu redor subiu alguns graus por minha causa.

Largo o copo em uma mesa lateral, sem desviar os olhos da sua nuca. Dou o primeiro passo para fora da proteção da coluna. O som do meu sapato de couro no chão de mármore é engolido pela batida, mas eu sei que ela vai sentir minha aproximação. A distância entre nós encurta.

Cinco metros.

Três.

Paro exatamente atrás dela, perto o suficiente para que o calor do meu corpo invada o seu espaço pessoal, mas sem tocar. O cheiro da sua pele, algo doce misturado ao sal do suor, me atinge como um soco.

"É um desperdício de talento dançar sozinha em um lugar onde todos matariam por um segundo da sua atenção", digo, minha voz saindo baixa, um barítono que vibra rente ao seu ouvido, cortando o som do clube. "Ou talvez você só não tenha encontrado alguém à altura do seu ritmo."

Inclino levemente a cabeça, observando de perto como a luz do clube atinge a linha da sua mandíbula. Estou esperando. Quero ver se ela vai fugir, se vai se curvar ou se vai ter a petulância de me enfrentar como eu espero que faça.

"Bonita a frase. Estava ensaiando na frente do espelho ou saiu natural?", ela diz e simplesmente sai dançando sem nem se preocupar se eu ouvi.

Um sorriso lento e perigoso surge nos meus lábios, e mesmo oculto pela máscara, meus olhos não escondem o brilho de puro deleite diante desse coice.

Ela é insolente. Eu deveria estar irritado por ser ignorado enquanto ela continua a se mover, mas a indiferença é o combustível mais potente que ela poderia ter jogado no meu fogo.

Dou mais um passo, reduzindo a distância a quase nada. Sinto o calor que emana da sua pele, o rastro de suor que brilha suavemente nas suas costas nuas, e o desejo de passar a língua por aquela curva pecaminosa me atinge como um soco no estômago. Mantenho as mãos nos bolsos, mas meus dedos se fecham em punhos, lutando contra o impulso de segurar sua cintura e interromper esse movimento que ela usa para me desdenhar.

"Saiu tão natural quanto a sua necessidade de fingir que a minha presença não te afeta", respondo, minha voz agora um sussurro rouco, quase fundindo-se à batida grave da música. "O espelho é para os narcisistas. Eu prefiro observar o real. E o que eu vejo aqui é uma mulher que usa o sarcasmo como escudo porque sabe que, se parar de dançar, não vai conseguir desviar o olhar do meu por mais de dois segundos."

Eu não recuo. Pelo contrário, inclino-me um pouco mais, deixando que minha respiração atinja a pele sensível logo abaixo da sua orelha, onde o cabelo está preso. Consigo ver os pequenos pelos do seu braço se arrepiando.

"Continue dançando", provoco, o tom carregado de uma autoridade sombria. "Adoro ver como você tenta manter o controle enquanto eu invado o seu espaço. Mas cuidado... no meu mundo, quem desafia o predador acaba aprendendo a gostar da caça."

Mantenho meu olhar fixo no perfil do seu rosto, esperando a próxima faísca. Ela não é como as mulheres da Renânia que baixam os olhos diante do meu sobrenome. Ela é o caos em lantejoulas prateadas, e eu estou começando a achar que domá-la vai ser o ponto alto da minha estadia em Mônaco.

"Pode ficar com a pista pra você."

Observo o movimento fluido e decidido com que ela se afasta, deixando-me para trás com uma frase curta que carrega mais desdém do que qualquer insulto direto. O modo como seus quadris balançam sob o brilho prateado do vestido enquanto ela caminha em direção ao bar é uma afronta que faz meu sangue circular mais rápido.

Maldita petulância.

Eu deveria simplesmente deixá-la ir e buscar alguém que saiba apreciar a hierarquia natural deste lugar. Mas o controle, para mim, é um vício, e ela acabou de chutar a porta da minha zona de conforto. Sigo seus passos, mantendo uma distância que me permite apreciar a linha impecável das suas costas, até que ela se encosta no balcão e faz o seu pedido.

Paro ao seu lado, invadindo seu espaço pessoal com uma proximidade que a maioria das pessoas consideraria intimidante. Não me sento. Fico de pé, a mão esquerda no bolso da calça, observando o barman preparar a bebida.

"Um Mojito?", minha voz sai baixa, carregada de um sarcasmo cortante. "Esperava que alguém com essa postura de quem é dona do mundo escolhesse algo com mais personalidade. Ou talvez o açúcar seja apenas um contraste necessário para esse seu temperamento... ácido."

Faço um sinal quase imperceptível para o barman, indicando que a conta é minha, sem desviar os olhos dela por um segundo sequer. Analiso a forma como segura o copo, a força nos seus dedos, a sua respiração que, apesar da pose, parece um pouco mais acelerada agora.

"Fugir da pista não vai fazer eu me interessar menos pelo que você está tentando esconder atrás desse seu ar de superioridade", continuo, inclinando-me levemente em sua direção.

O cheiro da sua pele agora é mais nítido, misturado à hortelã da bebida, e isso me irrita profundamente porque eu quero mais do que apenas o cheiro.

"Diga-me... você costuma dar as costas para tudo o que te desafia ou eu sou o primeiro homem aqui que conseguiu te deixar sem palavras?", observo o modo ela pega o copo de drink e como seus lábios envolvem o canudo, a sucção leve, o movimento da garganta enquanto engole... cada detalhe é uma provocação visual que ela finge não estar fazendo.

Ela inclina a cabeça, apenas o suficiente para me enquadrar na sua visão, o descaso na sua voz é quase palpável.

"Aquilo era um desafio? Desculpe, eu não percebi."

A audácia dessa mulher é um insulto delicioso. "Eu não percebi."

Solto uma risada curta, sem nenhum humor, apenas a constatação de que encontrei exatamente o que não sabia que estava procurando: um problema à minha altura.

Reduzo o espaço entre nós até que o meu terno toque levemente a lateral do seu braço. Sinto o calor que emana dela, um contraste violento com a frieza do mármore do bar.

"Não precisa mentir para mim. Seus olhos dizem o contrário enquanto você mede a distância exata para me manter por perto", respondo, minha voz descendo um tom, tornando-se uma vibração grave que sei que ela sente na pele. "E sim, foi um desafio. Mas se você não percebeu, é sinal de que preciso ser menos sutil. Eu não gosto de desperdiçar tempo com sutilezas quando o que eu quero está bem na minha frente."

Levo minha mão ao balcão, perto do seu copo, mas sem tocá-la. Meus olhos fixam-se nos dela através das máscaras, uma conexão que parece queimar o oxigênio entre nós.

"Você tem essa pose de quem não se impressiona com nada, mas sua pulsação aqui..." estendo o indicador e, com uma audácia calculada, toco a base do seu pescoço por apenas um segundo, sentindo a batida acelerada do seu sangue contra a ponta do meu dedo antes de afastar a mão "...diz que você está bem ciente de cada centímetro que eu avanço."

Aperto o maxilar, lutando contra o impulso de segurar seu queixo e forçá-la a encarar a intensidade do que estou sentindo.

"Me diz uma coisa: você costuma ser tão teimosa ou só está tentando ver até onde vai a minha paciência? Porque eu garanto... eu tenho toda a noite, e paciência é uma virtude que eu só exerço quando o prêmio vale o esforço."

"E eu sou um prêmio que vale o esforço?" O movimento que ela faz, virando-se de frente para mim pela primeira vez, é a confirmação de que o jogo finalmente começou.

Capítulo 2 A Predadora

Camila

Mônaco, La Rascasse.

09/Junho/2023, 16h58.

"O que as hienas estão tramando agora?" perguntei, surgindo por trás do trio de amigos com um sorriso insolente nos lábios e uma sobrancelha arqueada.

Eu caminhava de volta da área dos banheiros, sentindo o leve formigamento de três Aperol Spritz correndo pelo meu sangue. O sol de sexta-feira em Monte Carlo começava a mergulhar no Mediterrâneo, tingindo o céu de um laranja profundo e violeta que refletia nas vidraças dos iates atracados no porto. O som ao redor era uma mistura vibrante de risadas altas, batidas de house music suave e o tilintar constante das taças de drinks.

Sentia meu corpo leve. A aula que eu dei mais cedo fora um sucesso absoluto, e a adrenalina do movimento ainda pulsava sob minha pele, intensificada pelas duas taças de espumante que já haviam descido queimando suavemente além dos drinks.

"Se for fofoca sobre o coreógrafo francês, eu quero os detalhes sórdidos". O trio trocava sussurros rápidos, com os olhos brilhando de uma excitação contida. A francesa Amélie deu um pulinho na cadeira, rindo e ajeitando os óculos. Louise, no entanto, não perdeu tempo com rodeios. Ela me puxou pelo pulso para que eu me sentasse no centro do círculo improvisado.

"Esquece o francês, Cami. O assunto é muito melhor." Louise baixou ainda mais a voz, inclinando-se sobre a mesa. "Lembra que eu comentei que estava saindo com o Marc, aquele produtor que conheci no festival? Então... o homem é muito rico. Ele é sócio de um lugar chamado Le Masque."

Senti uma pontada de curiosidade. O nome soava como algo saído de um romance de época, mas o tom de Louise sugeria algo bem mais moderno e perigoso.

"Le Masque?" repeti, fazendo biquinho francês."Soa como um baile de máscaras de Veneza. O que é? Um restaurante exclusivo?"

"É um clube privado, querida. Mas não do tipo que você entra para jogar golfe", Louise soltou uma risadinha maliciosa, os olhos fixos nos meus. "É um clube liberal. Entretenimento adulto do mais alto nível. Máscaras obrigatórias, anonimato absoluto e uma discrição que faria a CIA parecer amadora. Marc vai para lá hoje à noite e eu ia com a Sophie, mas ela teve que viajar de última hora para Paris."

Paul limpou a garganta, parecendo um pouco desconfortável, mas fascinado.

"Eu até pensei, mas você sabe, Leo é monogâmico até debaixo d'água.

Louise ignorou Paul e focou toda a sua atenção em mim: "Marc me deu um convite extra. É sua última noite em Mônaco. Eu não quero ir sozinha e sei que os meninos não têm estômago para o que rola lá dentro. Mas você..." ela deu de ombros, sorrindo.

Fiquei em silêncio por um momento, sentindo a brisa quente do porto bagunçar meus cabelos. Olhei para Aline, minha secretária, que apenas deu de ombros com um olhar de ´eu não te impeço de nada´.

A ideia de um lugar onde as máscaras escondiam identidades, mas revelavam desejos, fez meu estômago dar um solavanco de pura antecipação. Faltam exatos dez dias para essa Eurotour acabar. Seis aulas, um baile, e de volta para a realidade no Rio de Janeiro. Mônaco é a minha última chance de cometer uma loucura que valha a pena antes da contagem regressiva terminar.

"Máscaras, é?" perguntei, com um brilho de desafio surgindo em meus olhos castanhos. Terminei o resto do meu espumante em um único gole, sentindo as bolhas explodirem no fundo da garganta. "Eu sempre achei que as pessoas mostram muito mais quem são quando acham que ninguém sabe o nome delas."

Abri um sorriso largo, aquele que Aline conhecia bem e que geralmente precedia uma história inesquecível ou um problema monumental.

"Se for para encerrar a viagem com chave de ouro, que seja em um lugar onde o 'proibido' é apenas o ponto de partida. Eu topo. Me diz que horas o carro passa."

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Mônaco, Le Masque.

09/Junho/2023, 22h15.

O Le Masque não tinha placa. Apenas uma porta dupla de madeira escura, encimada por uma lanterna de ferro forjado que emitia uma luz âmbar fraca. A transição do mundo exterior para o interior do clube foi um choque sensorial. A iluminação era extremamente baixa, em tons de vermelho escuro e âmbar, projetando sombras longas pelas paredes decoradas em uma Belle Époque sombria e decadente. O cheiro de perfume caro se misturava ao aroma sutil de tabaco adocicado e bebidas finas. O som que vinha do ambiente principal era um pulso contínuo, denso, que parecia vibrar direto no chão de madeira escura e subir pelas solas dos meus sapatos.

Assim que passamos pela recepção de mármore preto, um funcionário impecavelmente vestido, sem expressar qualquer reação, nos estendeu uma bandeja de prata com diferentes tipos de máscaras. Peguei uma máscara de renda e senti o peso dela nas minhas mãos. Era delicada, mas carregava uma promessa de mistério que a fez a minha pele formigar.

Ajustei a minha ao redor dos olhos e a sensação de ocultar o rosto trouxe uma liberdade quase instantânea. Ali dentro, ninguém tinha nome. Ninguém tinha passado. Minha amiga se despediu com um aceno rápido assim que o tal produtor apareceu para buscá-la na entrada, deixando-me exatamente como eu queria: sozinha.

Caminhei direto em direção ao bar de ônix polido. Cada passo meu era uma provocação silenciosa. Eu não conhecia ninguém ali. Ninguém sabia que eu era Camila Rios; ali, eu era apenas uma silhueta de lantejoulas e mistério. Pedi um Gin com Tônica com especiarias mantendo o torpor alcoólico que mantive toda a tarde.

Com a taça na mão vou direção à área de convivência principal, a lantejoula do meu vestido roçando suavemente contra as minhas coxas a cada passo lento que eu dava. O calor do meu corpo contrastava com a atmosfera fria e misteriosa do lugar. Eu não estava intimidada. Apoiei uma das mãos na parede de textura aveludada e parei por um instante, deixando meus olhos castanhos, agora moldados pelo contorno escuro da máscara, mapearem o território. A pista de dança estava cheia de figuras mascaradas que se moviam como formas elegantes, sussurrando nos cantos, copos de cristal brilhando sob as luzes fracas. Eu estava ali apenas para observar o ritmo daquela noite. E quem sabe, dançar conforme a música.

Termino de beber e decido ir até a pista de dança. Normalmente já estou acostumada a ser o centro das atenções quando começo a dançar, mas quando me movo no ritmo do dark progressivo no meio das pessoas, logo a atenção de toda área é voltada pra mim.

Eu observo os corpos e o pouco dos rostos que consigo ver por causa das máscaras. Há muitos homens realmente bonitos, e outros como diria Aline "são apenas europeus". As mulheres são um espetáculo à parte e o fato de algumas me olharem com tanto desejo faz meu estômago congelar em antecipação. Eu devo parecer uma visão tropical com meu corpo bronzeado no meio de tanta palidez da elite. O dark progressivo me envolve e por um momento eu esqueço das pessoas ao redor fluindo completamente no ritmo da música.

Depois de um tempo deixando o ritmo guiar meu corpo e uns drinks a mais, minha atenção capturou um movimento no topo da escada em caracol antes mesmo de qualquer outra pessoa notar. Eu o vi descer. O porte chamou minha atenção de imediato: um homem alto, muito alto, com cerca de 1,90m, de ombros largos e uma postura impecável que ostentava uma rigidez quase militar sob o terno sob medida de corte impecável. Ele usava uma máscara de cetim preto que cobria metade do rosto, mas a energia que emanava dele cruzou o salão como uma corrente elétrica.

Fingi que não estava olhando. Mantive meus olhos semicerrados, focados no vazio da minha própria dança, girando os quadris com a fluidez de quem conhece cada centímetro do próprio corpo, mas continuei rastreando os passos dele pelo reflexo dos espelhos e pela periferia da minha visão. Vi quando ele avançou em direção ao salão, com um andar frio, calculista, ignorando a opulência de mármore e cristal ao redor como se tudo aquilo estivesse abaixo dele. Ele se encostou em uma coluna, cruzou os braços e fixou os olhos em mim. Estava me comendo com os olhos, analisando a linha das minhas costas nuas no vestido de lantejoulas prateadas, descendo até a curva da minha cintura e parando na minha bunda.

Enquanto ele assistia de longe, o jogo começou ao meu redor. Um primeiro cara, achando que o ambiente de máscaras dava passe livre para qualquer coisa, tentou se aproximar invadindo meu espaço com uma conversinha barata, tentando dançar perto demais. Mal olhei na cara dele; apenas mudei o eixo do meu corpo com um giro seco e continuei meu passo, deixando o sujeito falando sozinho com o vácuo. O mascarado entendeu o recado e sumiu.

Senti o peso do escrutínio do cara de 1,90m. Era um olhar de predador social, pesado, denso, daqueles que tentam intimidar e desarmar. Qualquer outra mulher se sentiria acuada, mas eu sei exatamente o tamanho do corpão que tenho, o quanto sou gostosa e o efeito que causo quando possuo uma pista de dança. Longe de me intimidar, aquele olhar alimentou o meu ritmo.

Eu gosto de ser vista, gosto de ser notada, e aquela audácia dele só me deu mais energia. Eu sabia o valor do prêmio que ele estava cobiçando, e se um homem como aquele, claramente acostumado a ter o que quisesse com um estalar de dedos, achava que me levaria fácil, ele ia ter que suar muito a camisa.

Enquanto ele assistia das sombras, o ambiente ao meu redor continuava ativo. Um cara com uma máscara dourada extravagante achou que minha dança solitária era um convite. Ele se aproximou demais, invadindo meu espaço com aquele papo manjado de balada, esticando a mão para tocar meu braço.

"Uma mulher deslumbrante como você não deveria dançar sozinha. Me deixa te acompanhar?" ele sussurrou, tentando forçar uma intimidade que não tinha.

Eu nem precisei parar de dançar. Com a rapidez de reflexo que a dança me deu, esquivei o braço antes que os dedos dele se firmassem na minha pele. "Não perca seu tempo. Eu danço muito melhor sozinha" respondi de forma seca, direta, com um gesto firme de mão que o dispensou sem que eu perdesse um único compasso da música. O sujeito percebeu o corte, engoliu em seco e se retirou para o meio da multidão.

Olhei de relance para a direção da coluna e notei que aquilo, de alguma forma, o atiçou. Eu continuei meu movimento, girando o corpo, deixando as lantejoulas desenharem a curva do meu quadril a cada passo lateral. Joguei a cabeça para trás, sentindo o suor colar algumas mechas do meu cabelo escuro na nuca, expondo o decote profundo nas costas. Eu sabia que a temperatura ali tinha subido. Sabia que ele estava se movendo.

Pelo espelho lateral, vi quando ele largou o copo de whisky em uma mesa. O som dos sapatos de couro dele no mármore foi abafado pelo grave da batida, mas eu senti a aproximação. A densidade do ar mudou.

Ele parou exatamente atrás de mim. Não invadiu ou me tocou, mas a proximidade física foi tão intensa que o calor do corpo dele colou no meu espaço pessoal. O perfume dele, algo importado, amadeirado, forte e sofisticado, se misturou ao calor da pista. Senti meus músculos se contraírem de leve, a respiração subindo um tom mais pesada, mas mantive o controle.

"É um desperdício de talento dançar sozinha em um lugar onde todos matariam por um segundo da sua atenção" a voz dele ecoou em inglês, um barítono baixo, rouco e firme, que vibrou rente ao meu ouvido, cortando a música com uma autoridade quase insultuosa. "Ou talvez você só não tenha encontrado alguém à altura do seu ritmo."

Parei o movimento devagar, mas não me virei de imediato. Deixei o silêncio durar um segundo a mais entre nós, permitindo que ele experimentasse a minha indiferença controlada. Só então girei o corpo devagar, ficando de frente para os seus 1,90m, obrigando meu pescoço a inclinar levemente para encarar a imensidão daquele terno escuro. Olhei bem no fundo dos olhos dele através das fendas da máscara, sustentando o olhar com um sorriso cínico e provocador nos lábios.

"Bonita a frase. Estava ensaiando na frente do espelho ou saiu natural?"

Não esperei a resposta. Dei um passo para o lado com uma ondulação lenta de quadris, desviei do peito dele com a mesma facilidade com que descartei o outro e saí dançando em direção ao lado oposto da pista, deixando o perfume e o desafio flutuando no espaço vazio entre nós, sem me preocupar nem por um segundo se ele viria atrás.

O sussurro rouco dele veio como uma lufada de ar quente logo abaixo da minha orelha, quase se misturando com a batida grave do dark progressivo que fazia o chão do Le Masque tremer. "Saiu tão natural quanto a sua necessidade de fingir que a minha presença não te afeta" ele disparou, a voz carregada daquela arrogância pesada, mas absurdamente magnética. "O espelho é para os narcisistas. Eu prefiro observar o real. E o que eu vejo aqui é uma mulher que usa o sarcasmo como escudo porque sabe que, se parar de dançar, não vai conseguir desviar o olhar do meu por mais de dois segundos."

Senti um arrepio instantâneo subir pelos meus braços, e por mais que eu quisesse culpar o ar-condicionado do clube, eu sabia exatamente o que era. Aquele gringo arrogante tinha a língua tão afiada quanto o terno sob medida que vestia.

Ele não recuou um milímetro. Pelo contrário, inclinou-se ainda mais, invadindo meu espaço pessoal com uma audácia que me pegou de surpresa, e me instigou profundamente.

A maioria dos homens teria gaguejado, tentado se justificar ou simplesmente recuado depois do fora que dei, mas ele? Ele dobrou a aposta. "Continue dançando" ele provocou, o tom descendo para uma autoridade sombria, quase uma ordem sussurrada na minha nuca. "Adoro ver como você tenta manter o controle enquanto eu invado o seu espaço. Mas cuidado... no meu mundo, quem desafia o predador acaba aprendendo a gostar da caça."

Um sorriso lento, cheio de malandragem carioca, desenhou-se nos meus lábios por trás da máscara de renda preta. Ah, ele achava mesmo que estava no controle do tabuleiro. Eu entendi o jogo dele no mesmo segundo. Aquele olhar de predador, aquela postura de quem comanda e dita regras, era a assinatura de um homem que esperava que eu fizesse uma de duas coisas: ou eu sucumbiria à dominação dele, intimidada pelo poder que ele emanava, ou eu começaria a me explicar, a tentar me provar ou me justificar para manter a atenção dele.

Que bonitinho. Mas ele não tinha a menor ideia de quem eu era.

Não preciso me provar para um desconhecido em um clube privado e, muito menos, aqui em Mônaco, uma cidade estrangeira onde eu estava de passagem e onde não tenho motivos para voltar tão cedo. Eu estava livre de amarras, de reputações, de expectativas. E a verdade nua e crua é que eu estava adorando cada segundo daquilo. Estava achando uma delícia ser caçada por alguém tão absurdamente gostoso.

Em vez de parar ou de me virar para dar o palanque que ele queria, eu simplesmente usei a própria provocação dele a meu favor. Quando ele ameaçou se afastar para me deixar sozinha com a pista, meu corpo respondeu no puro instinto da dança. Girei os quadris de forma lenta, deixando que o tecido líquido do meu vestido de lantejoulas prateadas roçasse de leve na calça do terno dele, mantendo o contato físico por um milésimo de segundo a mais do que o necessário.

Olhei para ele por cima do ombro, sustentando o olhar firme por trás das máscaras. Eu queria ver até onde aquele gringo durão estava disposto a ir antes de quebrar aquela casca fria e perder o controle de verdade. Eu ia esticar aquela corda o máximo que pudesse.

"Pode ficar com a pista pra você."

Capítulo 3 Liebling

Friedrich

Ela não vacila. Gosto disso. A maioria das pessoas desvia o olhar quando eu decido focar toda a minha atenção nelas, mas ela sustenta o escrutínio como se estivesse acostumada a lidar com feras muito piores do que eu.

"Você pode ter a noite toda. Mas o meu carro chega em poucas horas para cruzar a fronteira. O meu tempo é a única coisa aqui dentro que o seu dinheiro não pode comprar." Ela rebate antes de levar os lábios ao canudo me provocando de forma deliberada.

Meus olhos percorrem seu rosto, descendo pela linha da mandíbula até travarem nos seus. A luz do bar reflete nas lantejoulas do vestido, jogando faíscas prateadas contra a minha pele, mas é o brilho de desafio nas suas pupilas que realmente me prende.

"Essa é uma pergunta perigosa para se fazer a um homem como eu" respondo, minha voz baixando para um tom perigosamente suave, enquanto reduzo os últimos centímetros que nos separam. "Porque se eu responder que sim, você não terá mais para onde fugir. E eu não sou o tipo de homem que coleciona troféus de participação."

Levo minha mão livre ao balcão, cercando e prendendo-a entre o mármore e o meu corpo, sem chegar a tocar sua pele, mas deixando que ela sinta o calor emanando do meu peito. Sinto o cheiro do seu hálito com toque de hortelã e a fragrância floral que sobe do seu pescoço.

"Você tem essa pose de quem é inalcançável, mas aqui, sob essas luzes..." Analiso cada microexpressão, procurando a menor rachadura na sua armadura de autoconfiança. "Vejo que você é feita de carne, osso e uma audácia que me dá vontade de descobrir exatamente o que acontece quando alguém finalmente te faz perder o fôlego."

Aperto o maxilar, a possessividade rugindo dentro de mim. Maldita mulher. Ela me olha como se eu fosse apenas mais um, e isso me deixa possesso e fascinado ao mesmo tempo.

"Quer saber se vale o esforço?" Inclino o rosto, meus lábios a milímetros dos seus, sentindo a sua respiração se chocar contra a minha.

"Eu ainda não decidi se você é um prêmio... ou uma punição que eu estou disposto a aceitar. Mas uma coisa eu garanto: eu nunca começo um jogo que não pretendo vencer. E agora que você se virou de frente, o tabuleiro é meu."

Minha mão sobe, meus dedos roçando de leve, quase como um acidente, na mecha de cabelo que cai perto do rosto, apenas para sentir a textura da sua pele.

"O que você vai fazer agora, Liebling? Beber seu drink e fugir de novo, ou vai me mostrar se esse seu olhar de fogo sustenta o incêndio que você acabou de começar?"

O modo como ela me encara, sem vacilar, enquanto desliza o canudo entre os lábios e bebe o drink com uma lentidão calculada, é uma declaração de guerra. Ela sabe exatamente o que está fazendo. Cada centímetro da sua postura grita que ela não tem medo do fogo, e eu estou começando a queimar. Sinto o meu pulso latejar sob o punho da camisa branca. O contraste entre a insolência dela e a elegância desse lugar me deixa possesso. Eu deveria me afastar, mas o cheiro da pele dela e esse olhar que me mede de cima a baixo me prendem aqui mais do que qualquer contrato de bilhões de euros.

"Você gosta de brincar com o perigo, não gosta?" Minha voz é um rosnado baixo, quase abafado pela música que pulsa ao redor.

Reduzo a distância até que meu peito quase roce no dela. Minha mão sobe, lenta, e eu envolvo o seu pescoço com os dedos, sem apertar, apenas deixando que ela sinta o calor da minha palma contra a sua pele. Meu polegar repousa exatamente sobre a sua carótida, sentindo o ritmo do seu coração.

"Um prêmio?" Repito a sua pergunta, inclinando o rosto até que minha boca fique a milímetros da sua orelha, onde o calor é mais intenso. "Prêmios são expostos em prateleiras, meine Liebe. Eu prefiro o que é selvagem, o que não se deixa capturar facilmente. Mas não se engane... eu não tenho o hábito de perder o que decido que é meu."

Aperto levemente os dedos, sentindo a textura macia da sua pele contra a minha mão, e volto a olhar diretamente nos seus olhos, a uma distância perigosa.

"Você está me dando o seu melhor olhar de 'não me importo', mas o seu corpo está me dizendo algo completamente diferente." Meus olhos descem para a sua boca, umedecida pelo mojito, e o meu autocontrole range como metal retorcido.

"Me diz... o que acontece se eu decidir que a brincadeira acabou e que eu quero saber o gosto dessa sua boca atrevida agora mesmo? Você continuaria bebendo esse drink com tanta calma ou admitiria que finalmente encontrou alguém que pode te tirar do sério?"

Ela desvia o olhar para a minha boca e depois para meus olhos, com uma lentidão torturante.

"Por que você não tenta e descobre?"

Sinto meu sangue entrar em ebulição. Ela não está apenas jogando; ela está derramando gasolina no incêndio e me entregando o fósforo com um sorriso no rosto.

Verfluchte! Filha da Puta!

Eu solto um riso baixo, quase um rosnado, que reverbera contra a pele dela. Meus dedos, que já cercavam o seu pescoço, deslizam para cima, emoldurando o seu rosto com uma firmeza que não admite fuga. Meu polegar pressiona levemente o seu lábio inferior, sentindo a umidade do drink que ela acabou de tomar e a maciez insultuosa da sua boca.

"Você não faz ideia do erro que acabou de cometer ao me dar essa permissão" sussurro, minha voz agora uma ameaça sombria e carregada de desejo. "Eu não sou um homem de 'tentar', querida. Eu sou um homem de resultados. E quando eu decido descobrir algo, eu vou até o fim, até que não sobre um único segredo guardado sob essa sua pose de mulher inabalável."

Reduzo a distância final. O calor entre nossos corpos é sufocante, uma barreira de eletricidade que reverbera a cada respiração compartilhada. Meus olhos descem para a sua boca novamente como alguém que está prestes a tomar o que lhe foi oferecido.

"Se eu começar, não vou parar até que você esqueça o próprio nome e implore para que eu não te solte nunca mais" digo, sentindo o perfume do seu hálito de hortelã misturado à luxúria que emana dela. "Ainda quer que eu tente, ou sua coragem acaba onde o meu domínio começa?"

Não espero por uma resposta verbal. Inclino a cabeça, meus lábios roçando os dela em um contato milimétrico, apenas uma promessa do que está por vir, sentindo a sua respiração travar contra a minha. Quero sentir a sua rendição, quero sentir o momento exato em que esse seu olhar de fogo se transforma em pura necessidade.

Ela me encara, imóvel, como se estivesse me desafiando a dar o passo final para o abismo.

Roço meus lábios nos dela com a leveza de uma pluma, mas a intenção por trás do gesto é pesada como chumbo. Sinto a textura macia da sua boca, o calor úmido que escapa entre seus dentes e o leve tremor da sua respiração que agora se funde à minha. Meu polegar, ainda pressionando seu lábio inferior, desliza para dentro da sua boca apenas o suficiente para sentir a ponta da sua língua.

"Você é muito boa nisso..." sussurro, minha voz saindo tão grave que sinto meu próprio peito vibrar contra o dela. "Mas eu não aceito empates, e essa sua imobilidade está prestes a desmoronar."

Não aguento mais essa distância insultuosa. Minha mão, que emoldurava seu rosto, desliza para a sua nuca, os dedos se enroscando no seu cabelo com uma força possessiva. Eu puxo sua cabeça levemente para trás, forçando-a a expor a curva do pescoço enquanto mantenho nossos olhos travados.

"Eu disse que não sou um homem de tentar" digo, as palavras roçando a sua boca antes de eu finalmente acabar com o espaço entre nós.

Então eu a beijo.

Não é um beijo cortês de Mônaco. É um beijo de Düsseldorf, frio na estratégia, mas incandescente na execução. Minha língua invade a sua boca com uma autoridade que não pede licença, reivindicando o território como se eu tivesse sido dono dele a vida inteira. Quero sentir o gosto do mojito, da hortelã e da resistência dela se transformando em rendição.

Eu esperava resistência, talvez um jogo de gato e rato mais longo, mas o modo como ela me devolve o beijo, com uma fome que rivaliza com a minha, é como um curto-circuito no meu sistema de controle.

Minha mente explode quando sinto a sua resposta.

Minha outra mão desce do balcão e aperta sua cintura, puxando ela contra o meu terno, querendo que ela sinta cada músculo tenso do meu corpo, querendo que ela saiba que, a partir deste momento, as regras do jogo mudaram. E eu sou quem dá as cartas.

Nossas línguas se encontram em uma batalha de domínio onde nenhum de nós parece disposto a ceder um centímetro. O gosto do mojito e da hortelã agora é apenas um detalhe sob o calor avassalador da sua boca.

Sinto o meu autocontrole se estilhaçar como cristal sob pressão. Eu a aperto contra o balcão, minhas mãos agindo por puro instinto possessivo; uma delas se enterra no seu cabelo, puxando levemente para manter o ângulo do beijo, enquanto a outra desce pela curva das suas costas, sentindo o relevo das lantejoulas até parar na base da sua coluna, prensando corpo dela contra o meu de forma que ela sinta cada centímetro da minha urgência.

O som ao redor desaparece. Não há mais música, não há mais multidão. Existe apenas a pressão dos nossos lábios e a audácia dessa entrega que me deixa possesso. Ela não beija como quem quer ser conquistada; ela beija como quem está tomando o que quer.

Gott im Himmel, Deus do céu... essa mulher é um perigo público.

Eu me afasto apenas um centímetro, o suficiente para recuperar o oxigênio, mas sem soltar o seu rosto. Minha respiração está pesada, errática, e meus olhos fixaram nos dela, escuros de puro desejo. O batom está borrado, e o brilho de desafio no olhar dela agora está misturado com uma luxúria que eu pretendo explorar até o fim.

"Você não faz ideia do que acabou de despertar" sussurro contra os seus lábios, minha voz saindo como um rosnado baixo e rouco. "Hoje vim aqui apenas para observar, mas agora eu só consigo pensar em como essa pista de dança se tornou pequena demais para o que eu quero fazer com você."

Minha mão se fecha na nuca dela com uma firmeza soberana, uma reivindicação silenciosa que não aceita objeções. Lanço um olhar rápido para o corredor lateral, onde as cortinas de veludo negro escondem os camarotes privados do Le Masque.

"Não vamos resolver isso aqui no balcão, à vista de todos" digo, deslizando minha mão do cabelo para segurar seu pulso, puxando-a levemente para mim. "Existe uma área reservada no andar superior. Veludo, sombras e a discrição que essa sua boca atrevida exige para ser devidamente silenciada."

Meus olhos descem para o decote e voltam para os olhos dela, carregados de uma promessa sombria.

"Venha comigo. Agora. Quero ver se você continua sendo tão corajosa quando não houver nenhuma platéia."

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