Aina
"Não. Não quero ela. Ela não pode ser minha companheira", Alex disse com puro nojo nos olhos, seu olhar percorrendo lentamente o meu corpo como se eu fosse algo imundo.
Hoje deveria ser o melhor dia da minha vida - minha cerimônia de companheiros. Aos dezoito anos, eu finalmente era maior de idade, finalmente pronta para formar o vínculo. Eu tinha imaginado tantas coisas... mas nunca isso.
Com quem a Deusa da Lua me uniu?
Alex Robinson.
Logo ele, o filho do Beta, o futuro segundo em comando da nossa matilha, aquele que todos admiravam e sobre quem sussurravam.
Mas eu? Ele nunca tinha gostado de mim. Isso eu sabia muito bem. E agora, parada na frente dele, estava claro que ele nunca gostaria de mim.
Eu já sabia o que viria a seguir - a rejeição.
"Mas não há nada de errado com ela, filho", o pai dele disse, tentando argumentar.
"Eu sei", Alex respondeu, seu tom afiado. "Mas não quero ela. Já estou apaixonado pela minha namorada. Não vou me contentar com uma garota gorda e inútil."
Sim, você ouviu direito.
Não sou o seu tipo ideal de companheira alta, esbelta e perfeita. Tenho curvas, um metro e sessenta e cinco. Uso óculos grossos por causa da minha visão, e tenho cabelo escuro e curto, e roupas que são mais funcionais do que estilosas - porque é só o que minha família pode pagar. Dou o meu melhor, mas claramente... não é o suficiente.
As palavras de Alex foram um tapa na minha cara. Minha loba choramingou dentro de mim, ferida pela iminente rejeição.
Quem algum dia escolheria alguém como eu?
Ainda assim, me recusei a deixá-lo ter a última palavra.
"Então eu, Alex Robinson, rejeito você, Aina Wilfred", ele disse, selando a dor que eu já via chegando.
Sem hesitar, ergui meu queixo e o encarei bem nos olhos.
"Eu, Aina Wilfred, rejeito você, Alex Robinson."
Suspiros de choque ecoaram pela multidão. Minha mãe enrijeceu ao meu lado, seu rosto se contorcendo em choque.
"O quê?", ela esbravejou, irritada, quase em pânico. "Retire o que disse!"
Mas eu não me movi. Estava encarando o homem que tinha sido meu companheiro apenas um momento atrás, observando enquanto algo cintilava no fundo de seus olhos. Arrependimento? Dúvida?
Eu nem sei.
Ele rangeu os dentes e forçou as palavras a saírem. "Está feito."
Então, como se para deixar isso bem claro, ele andou direto até ela - Miranda Warren, a loira perfeita, a coisinha linda com o sorriso falso e perfume demais.
"Miranda Warren será minha companheira - aquela com quem escolho passar a minha vida", ele anunciou para toda a matilha, segurando a mão dela como algum grande prêmio.
Miranda também não perdeu a oportunidade - me lançou um sorriso cruel e tapou o nariz como se eu fedesse antes de ambos se virarem.
Eles entraram no carro estacionado bem no centro da praça da matilha e foram embora sem nem mesmo um olhar para trás. Ao meu redor, lobos que já tinham encontrado e aceitado seus companheiros estavam rindo, se beijando, de mãos dadas - comemorando.
E eu apenas fiquei lá parada, como um maldito poste.
Minha mãe balançou a cabeça, claramente decepcionada, e se afastou com um longo suspiro. Sem uma palavra, nem mesmo um olhar, apenas se virou e saiu, como se eu já fosse problema de outra pessoa.
Tudo ao meu redor começou a ficar embaçado.
Lá estava de novo aquele sentimento - o peso da invisibilidade, como se eu não existisse. Ninguém veio ver como eu estava. Ninguém perguntou se eu estava bem. Estavam todos ocupados demais envolvidos com seus companheiros, vivendo em seus novos mundinhos perfeitos.
Eu não tinha me movido. Fiquei enraizada no mesmo lugar - o exato local onde nossos olhos tinham se encontrado pela primeira vez. O vínculo tinha acendido instantaneamente. Eu tinha sentido... e ele também.
Mas no momento em que Alex sentiu aquela conexão, foi como se todo seu mundo desmoronasse ao seu redor, como se me ter como companheira fosse uma maldição da qual ele mal podia esperar para se livrar.
O sol baixou rapidamente, mergulhando a praça em sombras. O céu ficou frio e cinza, combinando com a dor oca dentro do meu peito. Mas eu não fui embora. Era assim que lidava com a dor - silenciosamente, sem lágrimas, sem gritar.
Apenas quietude.
Então, ouvi.
Uma voz.
Baixa, áspera, tentadora.
"Aina."
Só a forma como ele disse meu nome fez um arrepio percorrer minha espinha. Lentamente, me virei, o coração já batendo forte - e lá estava ele.
Osborne Cliff.
O filho do Alfa.
Alto, imponente, perigoso.
E o melhor amigo do garoto que tinha acabado de me rejeitar.
Ele estava parado ali com as mãos nos bolsos, os lábios curvados em um tipo de sorriso que poderia derreter aço. Seus olhos penetrantes se fixaram nos meus como se eu fosse algo que valesse a pena ser observado - algo que valesse a pena reivindicar.
Mas espere - como ele sabia meu nome?
Osborne Cliff nunca tinha falado comigo antes, nem mesmo uma vez. Então por que agora? Por que aqui?
Isso era algum tipo de piada doentia? Ele tinha vindo zombar de mim depois que seu melhor amigo me humilhou na frente de toda a matilha? Essa era a sua maneira de me atingir quando eu já estava no chão?
Ele nem sequer tinha estado na cerimônia de companheiros. Enquanto todos os outros estavam lá fora procurando por sua outra metade, não o vi nenhuma vez - nenhuma garota agarrada ao braço dele, nenhum sussurro sobre com quem ele poderia acabar.
E até onde eu sabia, ele não tinha uma companheira.
Então por que ele estava aqui?
Lento e deliberado, ele andou na minha direção, como um predador que já sabia que sua presa não tinha para onde correr.
Pisquei quando seu cheiro me atingiu - terroso, masculino, rico e quente como cedro e fumaça - e se envolveu ao meu redor, fazendo minha pele formigar.
Confortante... e arrepiante.
Ele parou na minha frente e ergueu-se sobre mim, aquele mesmo meio sorriso ainda puxando seus lábios. Senti-me pequena perto dele, não apenas em tamanho, mas em presença, como se ele pudesse me esmagar sem tentar - mas escolhesse não fazer isso.
Então, se abaixou apenas o suficiente para deixar seus olhos no mesmo nível que os meus. O sorriso provocador desapareceu ligeiramente, substituído por algo mais sombrio.
Algo... intenso.
"Aina", ele disse, a voz baixa e áspera. "É bom que ele tenha rejeitado você."
Suas palavras atingiram fundo, mais afiadas do que as de Alex.
Estremeci, minha garganta apertou e um nó subiu no meu peito. Deusa, eu ia chorar - e odiava que ele visse isso. Por que ele diria algo tão cruel? O que fiz para merecer isso?
Eu estava prestes a desviar o olhar, mas ele não tinha terminado.
"Porque eu mesmo o teria matado se ele não tivesse feito isso."
Espere, o quê?
Osborne
Eu não tinha ido à praça da matilha procurar minha companheira, não porque não tivesse idade, mas porque já tinha alguém em mente. O problema? Toda vez que nos encontrávamos, nada acontecia - nenhum vínculo, nenhuma conexão.
E eu odiava isso.
Ninguém nunca parecia notá-la como eu notava. Talvez seja por isso que me contive. Esperei que ela amadurecesse, que atingisse a maioridade e finalmente se unisse a mim, mas ultimamente, parecia que toda a esperança estava escapando pelos dedos. Às vezes, eu achava que deveria simplesmente reivindicá-la de uma vez e acabar logo com isso.
Então, mais uma vez, fiquei no meu quarto enquanto os outros saíam.
Alex tinha ido, arrastando sua namorada com ele. Estranho como ele tinha uma namorada apesar de não ter conhecido sua verdadeira companheira. O que ele faria se finalmente a encontrasse? Ou se a namorada dele acabasse sendo a companheira de outra pessoa? Esse tipo de desilusão amorosa arruína as pessoas.
De qualquer forma, o pai dele garantiu que ele fosse desta vez - queria que ele conhecesse sua companheira e aceitasse o vínculo. O beta até foi junto para garantir isso.
Já fazia um tempo desde que Alex tinha saído, e imaginei que ele voltaria em breve. Esta casa podia parecer tão vazia às vezes. Talvez eu devesse ter ido junto, só para dar uma olhada nela como costumava fazer. Só o pensamento nela me fez sorrir.
Sua figura fofa.
Aqueles óculos grandes demais.
Toda vez que eu a via, era uma luta para me controlar. No começo, achei que eu era apenas doente da cabeça, mas não - era ela, cada centímetro dela. O jeito que ela mordia o lábio quando estava nervosa me dava vontade de esmagar minha boca na dela. Só de pensar nisso, eu ficava duro.
De repente, a porta se escancarou e Alex entrou furioso, visivelmente irritado. Veias saltavam em sua testa, e ele estava praticamente fervendo de raiva.
"Você consegue imaginar com quem fui pareado?", latiu, batendo a porta atrás de si.
Ri, divertido. "Quem? Alguém que conheço?"
Ele suspirou de frustração. "Aquela gorda de merda."
Imediatamente, meu sorriso sumiu e meu corpo enrijeceu. Minha voz ficou fria enquanto me levantava da cadeira.
"Quem?", perguntei, já temendo a resposta.
Ele hesitou então, notando a mudança na minha energia. "Você sabe... Aina..."
Não o deixei terminar.
Meu punho bateu na mesa com tanta força que ela rachou. Cerrei os dentes, me forçando a não socar Alex ali mesmo. A raiva girava dentro de mim como uma tempestade. O que diabos ele acabou de dizer?
"Qual é o seu problema?", ele perguntou, genuinamente confuso agora.
Eu estava respirando pesadamente, tentando me acalmar quando a porta rangeu novamente e Miranda entrou.
"Você já contou a ele?", ela perguntou a Alex, uma risadinha perversa escapando de seus lábios. "E não se esqueça de contar a ele como você a rejeitou."
Minha cabeça virou bruscamente na direção dela e perguntei, a voz baixa, perigosa: "Ele a rejeitou?"
Até Miranda congelou, os olhos disparando entre Alex e eu, sentindo que algo estava errado.
Alex assentiu lentamente.
"Por que você está tão alterado?", perguntou, as sobrancelhas franzidas, claramente não entendendo o que tinha desencadeado.
Fechei os olhos e puxei o ar bruscamente. Ele teve sorte - eu estava tão perto de fazer algo do qual me arrependeria.
"Nada", finalmente murmurei. "Só lembrei de uma coisa que preciso resolver."
Peguei uma das chaves do meu carro no gancho e saí, deixando-os para trás no silêncio e na confusão do que tinha acabado de acontecer.
Dirigi direto para a praça da matilha, meu instinto me dizendo que ela ainda estava lá. O que faria quando a visse lá? Caramba, teria que me conter.
Parei o carro e observei os amantes se afastando, de mãos dadas, tontos com a conexão. Alguns deles estariam emaranhados nos lençóis antes da meia-noite, reivindicando um ao outro de maneiras que eu ainda não conhecia. O pensamento fez algo amargo se revirar no meu peito.
Caminhei lentamente até a praça da matilha e lá estava Aina, exatamente onde imaginei que ela estaria.
Ela estava parada em um lugar, imóvel, como uma estátua esculpida pelo coração partido - sozinha, como sempre. Suas costas... tremiam, só um pouco, mas era o suficiente.
Eu podia senti-la desmoronando, mesmo a essa distância.
Nunca fui rejeitado antes - não fingiria sequer entender aquele tipo de dor pela qual ela devia estar passando, pois apenas os rejeitados sabem de verdade como é. Mas vê-la sofrer por outro homem? Isso... isso pareceu como uma lâmina atravessando meu peito.
Por um cara que sequer olhava na direção dela e a chamava de gorda idiota, um cara que desfilaria com outra mulher na frente dela como se ela fosse invisível. Por alguém cego demais para ver a joia que deixou escapar por entre os dedos.
Então, fiquei ali, escondido, observando-a como sempre fazia, silenciosamente, constantemente.
O jeito que ela sofria em silêncio, segurando lágrimas que queimavam para ser liberadas, despertou algo primitivo em mim.
Quando o sol baixou, não deixando nada além do azul do crepúsculo, sorri para mim mesmo. Já chega, meu docinho.
Então, eu disse o nome dela.
"Aina."
Ela se virou rapidamente ao som da minha voz. Seus olhos se fixaram nos meus, arregalados, assustados, e nesse momento, a corrente que corria por mim aumentou, quase me deixando sem ar.
Sorri para ela.
Ela não sabia o que fazer com sua expressão. Uma dúzia de emoções piscou em seu rosto de uma só vez - choque, suspeita, confusão.
Era adorável.
Movi-me na direção dela lentamente, deliberadamente. Então parei, me inclinando apenas o suficiente para que seus olhos pudessem encontrar os meus adequadamente, mesmo por trás dos seus óculos.
"Aina", eu disse de novo, a voz baixa e segura. "É bom que ele tenha rejeitado você."
Vi o lampejo em seus olhos - a pontada, o jeito que sua respiração falhou, como se ela não soubesse se chorava ou me dava um tapa. Seus lábios tremeram enquanto ela mordia o inferior, tentando se estabilizar.
Deus, eu queria beijá-la bem ali, mas disse o que realmente pretendia.
"Porque eu mesmo o teria matado se ele não tivesse feito isso."
Seus olhos se arregalaram, buscando os meus como se não tivesse certeza de que tinha me ouvido direito.
Mas falei sério em cada maldita palavra.
Aina
Pisquei, atônita com o que tinha acabado de ouvir. Esse era mesmo Osborne, o filho do Alfa? Meu peito se apertou enquanto engolia em seco.
"O que você quer dizer?", perguntei, minha voz mal passando de um sussurro.
Essa era a primeira vez que falava com ele diretamente. Sempre o via de longe, e sempre que nossos olhos se encontravam, ele desviava o olhar rapidamente. Não por nojo, não... ele nunca olhou para mim daquele jeito, mas ainda assim, ele também nunca me notou.
Éramos estranhos.
Ele sustentava meu olhar agora, inabalável. "Quis dizer que não quero que nenhum homem tenha você... exceto eu."
Meu coração bateu forte no peito. Fiquei paralisada, sem saber se isso era real ou apenas uma piada cruel.
"Você está aqui para zombar de mim?", perguntei baixinho.
Osborne balançou a cabeça, erguendo-se imponente diante de mim. Aquele sorriso de lado característico curvou seus lábios enquanto ele olhava para mim como se eu pertencesse a ele.
"Eu, Osborne Cliff, futuro Alfa da Matilha Crista Prateada, tomo você, Aina Wilfred, como minha companheira. Que a Deusa da Lua seja testemunha."
As palavras me atingiram como um raio.
Instintivamente, dei um passo para trás, mas o cheiro dele me envolveu como um cobertor - quente, dominante e irresistível. Minha loba, que estivera silenciosa e retraída o dia todo, de repente uivou com vida renovada.
"Meu!", ela gritou.
O que... o que acabou de acontecer?
Antes que eu pudesse sequer processar a declaração dele, uma onda de fraqueza atingiu meus joelhos. Minha barriga formigou como se algo bem fundo lá dentro tivesse sido despertado.
Então senti - o calor pulsante no meu íntimo. Meu corpo estava respondendo a ele, clamando por algo que só ele poderia dar. E pior, meu cheiro encheu o ar.
Oh Deusa... eu estava no cio...
Então ouvi um rosnado baixo e retumbante, vindo dele.
Olhei para cima, encontrei seus olhos e congelei.
Oh não...
Havia uma fome crua e primitiva em seu olhar, como se ele estivesse se contendo apenas por pura força de vontade, como se mais um suspiro meu fosse quebrar qualquer controle que lhe restasse.
Abri a boca para falar, para dizer algo - qualquer coisa - mas nada saiu.
Isso... isso não podia estar acontecendo.
Mas em dois passos longos, ele estava na minha frente, me agarrou - firme, possessivo - e me puxou contra seu peito como se eu pertencesse àquele lugar.
Seu rosto mergulhou na curva do meu pescoço, e estremeci quando seu nariz roçou na minha pele. Ele inalou profundamente, gemendo como se meu cheiro o estivesse deixando louco.
Então senti a língua dele, quente e úmida, roçando no meu pescoço.
"Por favor... espere", sussurrei, sem fôlego, mal conseguindo pensar.
Ele parou, mas apenas levemente, sua voz um sussurro baixo e áspero misturado com desejo.
"Seu cheiro... quero devorar você."
Suas palavras fizeram um arrepio percorrer minha espinha. Meu corpo se contraiu em resposta, e um gemido suave escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-lo.
Senti também - a atração, a necessidade de me perder nele.
Seu cheiro, denso e masculino, invadiu meus sentidos. Eu estava tonta, o desejando.
E então - simplesmente assim - sua boca colidiu com a minha.
Faminta, possessiva, crua.
Um beijo que não estava pedindo, mas reivindicando.
Sua língua escorregou para dentro da minha boca - quente, exigente - e o deixei entrar, gemendo suavemente contra seus lábios. Nunca tinha beijado ninguém antes. Estava fazendo errado? Provavelmente. Mas de alguma forma, ele não pareceu se importar.
Na verdade, quanto mais nos beijávamos, mais ele parecia se descontrolar.
Suas mãos agarraram minha cintura, me puxando mais apertado contra ele, e instintivamente ergui as mãos, os dedos se emaranhando em seu cabelo grosso. Ele soltou um rosnado que vibrou pelo meu peito enquanto apertava meu traseiro como se estivesse memorizando cada curva.
"Abra mais a boca", murmurou, a voz rouca de desejo.
Obedeci sem pensar, e nossos lábios se moveram em sincronia, um ritmo no qual parecíamos entrar com facilidade. Pressionei-me mais perto, desejando seu calor, seu cheiro, a possessividade em seu toque. Queria mais - mais dele, mais disso - coisas que ainda nem conseguia nomear, apenas sentir fundo nos meus ossos.
Então o toque estridente do meu telefone despedaçou o momento.
Ele se afastou, nós dois respirando pesadamente, nossos peitos subindo e descendo como se tivéssemos acabado de emergir de águas profundas.
Olhei para ele. Seu cabelo estava desgrenhado, obra minha. Uma emoção estranha correu por mim.
Engoli em seco e alcancei meu telefone. Ao ver que era minha mãe, meu estômago afundou. O jantar, eu tinha esquecido que deveria cozinhar, mas já era tarde.
"Tenho que ir", sussurrei, a culpa se instalando rápido.
Ele não respondeu imediatamente. Seus olhos permaneceram fixos em mim, pupilas dilatadas, o olhar escuro com algo selvagem.
"Não quando você tem esse cheiro", murmurou, a voz áspera e cheia de necessidade.
Enrijeci. Eu queria ficar, Deusa, queria tanto ficar, mas se não chegasse em casa logo, meu pai perderia a cabeça.
"Realmente tenho que ir", disse eu de novo, mais firmemente desta vez, mesmo odiando cada palavra.
Osborne olhou para mim como se quisesse discutir. Então lentamente - quase com relutância - se inclinou de novo, o nariz roçando a curva do meu pescoço enquanto inalava profundamente.
Tremi com o som baixo e primitivo que veio dele.
"Levo você para casa", ele disse por fim. "É muito perigoso para você andar por aí com esse cheiro."
'Mas duvido que alguém sequer notaria', pensei, desviando os olhos para o lado.
Ninguém nunca nota.
Não uma garota gordinha e de óculos como eu...
Oh, certo...
Osborne Cliff nota.
Dirigimos em silêncio, o ar denso com tudo o que não foi dito. Sentei rigidamente no meu banco, ainda tentando processar o que tinha acabado de acontecer - Osborne tinha me reivindicado, realmente me reivindicado, perante a Deusa da Lua e nós nos unimos. Como isso era sequer possível?
E então... ele havia me beijado... não apenas um beijo qualquer, mas um que queimou e marcou.
Ele não tinha agido com vergonha ou nojo, não, de jeito nenhum. Ele tinha me tomado - me possuído - com uma fome que eu não entendia mas sentia até o fundo da minha alma. Mil perguntas giravam na minha cabeça, desesperada por respostas, mas agora, nenhuma delas importava mais do que chegar em casa.
Eu só esperava que não fosse tarde demais.
Meu pai não encarava a desobediência de forma leviana.